Um dia como hoje
Sobre a foto que o celular desenterra, e a gente que a vida foi levando.
O celular fez de novo. Aquela notificação mansa: “um dia como hoje, há 6 anos”. E antes de eu decidir se queria, a foto já tava ali, aberta na tela, no meio da noite.
Era uma foto boba. Uma mesa, umas pessoas, uma comida já pela metade. Ninguém posando. O tipo de foto que a gente tira sem pensar e nunca mais olha. Só que o celular olhou. Ele guarda tudo, e escolhe a hora de devolver.
E devolveu bem quando eu não tava pedindo.
Porque tem gente naquela mesa que não senta mais comigo. Não brigamos, não teve tragédia. A vida só foi levando, do jeito que ela leva: um mudou de cidade, o outro mudou de vida, e a gente foi trocando o “bora marcar” pelo “sumido, hein”. A distância não chega de uma vez. Ela chega em parcelas que a gente nem sente passar.
Na hora da foto, ninguém sabia que aquilo era importante. A gente achava que era só uma terça. Só um jantar. A gente sempre acha que vai ter mais. E é essa a maior mentira que a pressa conta: que sempre vai ter mais.
Drummond passou a vida mostrando que a memória mora nas coisas pequenas. Num guarda-roupa, num retrato, num verso. Hoje ela mora num aplicativo que decide sozinho a hora de cutucar a ferida. Chamam de recordação. Às vezes é só emboscada.
Fiquei um tempo com a tela acesa. Não chorei, não sorri. Fiquei naquele lugar do meio, que não tem nome, onde a saudade e a paz dividem a mesma cadeira.
Depois fiz a única coisa que fazia sentido. Peguei o zap e mandei a foto pra um deles, sem legenda. Cinco minutos depois veio a resposta: “caraca, que época”. A vida não voltou. Mas por um instante, a mesa ficou cheia de novo.
Quem foi que o seu celular te fez lembrar hoje, e você deixou pra depois?

