Imagine que abriram uma central de troca de problemas. É um lugar onde você entrega todos os seus problemas, sejam eles financeiros, de saúde ou de relacionamento, e recebe os de outra pessoa que você nunca viu na vida.
Você chega, tira uma senha e nela está escrito: “Troca de problemas”.
Para participar, você precisa preencher um formulário em três vias. Na primeira, escreve o seu problema com as suas próprias palavras. Na segunda, informa há quanto tempo enfrenta essa situação. A terceira parte é a mais difícil: você precisa assinar, confirmando que a troca é definitiva.
E tem uma regra no rodapé, escrita em letras pequenas, como sempre acontece com as regras mais importantes: você não escolhe o que vai receber. É tudo sorteado.
Você entrega o seu problema, gira o globo e sai de lá com o problema de outra pessoa, sem poder ler antes o que está recebendo.
Ou seja, o novo problema pode ser maior ou menor que o seu.
A fila já está dando a volta no quarteirão. Afinal, essa pergunta todo mundo responde rápido:
“Eu troco na hora.”
E já começa a se levantar da cadeira.
Mas aí você olha para a fila e percebe algo importante.
Quase todo mundo ali pensa primeiro em dinheiro. No aluguel que aumentou, na fatura que não fecha, no carro que vive mais na oficina do que na garagem.
A pessoa entrega tudo isso e, no fundo, espera receber um problema um pouco melhor. Talvez o problema de alguém que já conseguiu resolver o aluguel.
Só que o sorteio não separa os problemas por tipo.
Você pode sair de lá rico. Mas pode ser um rico sentado na sala de espera de um médico particular, com um ótimo plano de saúde e dinheiro suficiente para pagar o tratamento de uma doença terminal.
E então você entende o que essa história mostra: existem problemas que se resolvem com dinheiro e outros que nenhum dinheiro resolve.
E não são a mesma coisa.
A gente trata os dois tipos de problema com o mesmo desespero, mas eles não são iguais.
O problema financeiro é aquele que faz você acordar às três da manhã. É chato, cansativo, humilhante no dia do vencimento. Mas tem solução. Tem prazo, tem parcela, tem um dia em que termina.
Talvez você nunca tenha olhado para ele dessa forma, porque quase ninguém o faz.
Não estou dizendo que um problema financeiro é pequeno. Estou dizendo que ele é negociável, e isso já faz muita diferença.
Mas há pessoas enfrentando outro tipo de problema, aquele que nem todo o dinheiro do mundo consegue resolver. Uma doença em fase terminal. A perda de uma perna ou de um braço.
O absurdo é querer trocar algo que pode ser resolvido por um envelope fechado, que talvez traga algo impossível de resolver.
E não se trata só de agradecer pelo que você tem, porque isso pode parecer uma frase motivacional vazia.
É saber o nome do que está nas suas mãos antes de soltar.
Se o sorteio fosse agora, você trocaria o que tem sem saber o que receberia em troca?

