Quando sai o gol, eles se jogam no chão. Um fica por cima do outro; cinco ou seis homens se amontoam na grama. Um beija a cabeça do outro. Alguém dá um tapa na bunda do companheiro e ninguém liga. Tem gente chorando abraçada no meio do campo, com câmera na cara, e o país inteiro vendo e achando bonito.
Noventa minutos depois, esses mesmos dois homens se despedem no estacionamento. Mas aí o abraço já muda.
Você conhece esse abraço. Sempre vem com três tapinhas nas costas. Nunca dois, nunca quatro. Os tapinhas mostram que aquilo não é bem um abraço, é só um cumprimento. Se durar um pouco mais, alguém logo muda de assunto.
Se você reparar, as regras estão cheias de detalhes. Beijo na cabeça pode, mas só se acabou de sair um gol. Mão no rosto pode, se for pra consolar depois de uma derrota. Chorar pode, e pode muito, desde que seja por um título ou por uma eliminação. Sentar no colo pode. Deitar por cima pode. Mas perguntar “como você tá?” e esperar uma resposta de verdade, isso não pode em lugar nenhum.
Aí você percebe que o campo não liberou o afeto. O campo só deu uma desculpa.
Não é o abraço que muda no estacionamento. É a desculpa que termina. Dentro das quatro linhas, o toque tem motivo: é comemoração, é tática, é o jogo. Ninguém está se abraçando; estão comemorando, e o placar confirma. Fora de campo não tem placar pra explicar nada. O gesto passa a valer por si só, e um abraço, sozinho, é só um abraço. Parece que é isso que assusta.
E ninguém aqui é vilão. O menino que aprendeu essa regra não escolheu aprender, só percebeu cedo quem apanhava por errar. Ele entendeu que o carinho precisa de motivo e foi guardando esses motivos.
O preço aparece depois e chega devagar. É o amigo que some por três anos e volta dizendo “sumido”. É o homem que percebeu que precisava falar quando já ficou difícil começar.
O campo de futebol não é o lugar onde o homem brasileiro é mais livre. É só onde ele conseguiu permissão. E essa permissão termina junto com o jogo.
Quando foi a última vez que você, homem, abraçou ou beijou um amigo sem precisar de um motivo ou de um jogo de futebol?
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