É sexta-feira, a turma sentada numa mesa de plástico na calçada, a terceira cerveja já suando no copo. Um dos amigos abaixa a voz porque, em uma mesa de bar, isso é sinal de que vem uma história para se gabar.
“Rapaz, a vizinha bateu na parede. Ela se tremeu toda.”
Todo mundo na mesa ri. O segundo amigo não fica atrás: diz que a dele gritou tanto que até o cachorro latiu. O terceiro fala de lençol, de relógio, de “ela nem conseguia falar”. Em poucos minutos, a conversa vira competição, e o prêmio é sempre o mesmo: o barulho que ela fez.
Repara numa coisa: ninguém naquela mesa falou sobre o que sentiu.
Nenhum deles disse que perdeu o fôlego, que o corpo tremeu, que, por um instante, esqueceu o boleto, o chefe ou até o próprio nome. O prazer só aparece na conversa como prova de desempenho, tipo gol na pelada: o que importa é o placar, não o jogo.
Aí dá pra entender por que tanto homem fica calado na cama.
Não é que ele não sinta. É que aprendeu cedo onde pode fazer barulho. Gritar no estádio pode. Falar palavrão no trânsito pode. Dar uma boa risada com os amigos também pode. Mas um gemido, aquele som que sai sem querer, que não dá pra ensaiar e mostra que você se entregou, esse parece fraqueza. Parece perder o controle. E homem, ensinaram pra gente, é quem segura tudo.
Então ele se segura. Morde o lábio, prende a respiração, transforma tudo num suspiro discreto, como quem acabou de subir uma escada. Fica ali, presente de corpo inteiro, mas sem voz, cuidando para não ser ouvido justamente onde ser ouvido era o convite.
O curioso é que a mesma mesa de bar, tão barulhenta, foi quem ensinou o silêncio. Ali se fala de sexo a noite inteira, mas ninguém fala de prazer. Só relatório de performance, nenhuma palavra sobre o que se sente.
Ficar em silêncio na cama não é elegância. É ficar de guarda.
E se controlar bem na hora de se soltar tem um preço alto. Quem nunca se ouviu também não aprende a dizer do que gosta. E quem não fala do que gosta acaba preso ao roteiro do filme, ao que acha que ela espera, ao placar da mesa.
A pergunta fica pra você; não precisa responder em voz alta na mesa do bar.
Quando foi a última vez que você deixou seu corpo fazer barulho sem medo de julgamento?

