O ônibus B.A.S.I.C de sábado
Aos doze anos eu não sabia que estava influenciando a minha vida inteira.
Estava organizando algumas fotos no meu computador quando achei uma bem antiga. E a foto estava colada em uma carteirinha de papel duro, meio amarelado e com o nome do curso ainda batido à máquina de datilografar (vou deixar o link aqui caso algumas pessoas nem saibam o que é isso!): curso de linguagem BASIC. Micro computadores. Turma A, sábados, das treze às dezessete. Emitida em 1990.
Eu tinha acabado de completar 12 anos.
Eu morava em Porto Seguro, mas o curso era em Eunápolis; na época, era um povoado (o maior povoado do mundo!) que ficava a 1 hora de viagem de ônibus. E eu tinha que viajar sozinho todos os sábados para ir ao curso enquanto meus amigos estavam na praia ou simplesmente dormindo depois do almoço.
Uma hora de viagem vendo a estrada passar sentado em uma poltrona de ônibus. Sozinho. 12 anos. Mas eu não vejo nada de heroico nisso. Eu gostava. Aquelas computadores antigos de tela verde eram a coisa mais interessante que eu já tinha visto na vida.
Hoje eu sou pai e não deixo meus filhos de 10 anos irem sozinhos ao supermercado da esquina. Todo mundo fala que eram outros tempos e que hoje a violência está demais.
Meus pais deixaram.
Muito mais do que a lembrança, o que me marcou agora foi a data.
Era 1990 e eu estava iniciando uma jornada que decidiria a minha faculdade de informática, o meu estágio em Londres, minha cidadania britânica, os bancos em que trabalhei em Canary Wharf e dois filhos nascendo do outro lado do oceano na Inglaterra.
E tudo isso começou a partir daquela carteirinha.
A maior parte da nossa vida, a gente cresce achando que as decisões importantes serão feitas em momentos cruciais da nossa vida: primeiro emprego, primeiro carro, casamento, primeiro filho. Mas muitas dessas decisões aí acima foram resultados dessas viagens todos os sábados para fazer esse curso de programação B.A.S.I.C.
Eu tô olhando a carteirinha aqui do lado enquanto eu escrevo.
Ainda dá pra ler o horário: sábado, 13h.
Mas sabe o que eu mais queria agora?
Poder sentar do lado daquele menino no ônibus e não dizer nada.
Só ver o brilho no olhar dele enquanto ele olha a estrada que se abre na frente dele.

