O grupo de WhatsApp da família
A gente silencia, reclama do bom dia da tia — e um dia descobre pra que ele servia.
Todo mundo tem um, e todo mundo silencia. O grupo da família é aquele lugar onde a tia manda “bom dia” com um buquê de rosas girando e uma frase escrita em cima, o tio despeja um áudio de quatro minutos com uma teoria que ninguém pediu, e a prima avisa que a água com limão em jejum cura sete doenças. A gente arrasta a notificação pro lado, revira os olhos, e às vezes conta pros amigos como quem conta uma desgraça engraçada.
Eu fazia isso. Silenciei o meu por meses. Achava aquilo barulho: corrente, figurinha, política mal digerida, “amém quem ama Deus”. Um ruído de fundo de gente que eu amo mas que insiste em me acordar às seis da manhã com um passarinho animado desejando uma semana abençoada.
Aí um dia alguém adoece. E o grupo que era piada vira a coisa mais séria do mundo.
De repente aquele mesmo espaço — o das rosas girando — é onde a família inteira se encontra sem combinar. Um manda o número do quarto. Outro se oferece pra levar comida. A tia do bom dia, aquela mesma, é a primeira a dizer “tô rezando, me avisem de tudo”. E você entende, com um nó na garganta, que ela sempre esteve rezando. O buquê de rosas era isso o tempo todo. Era ela dizendo, do jeito dela, com a ferramenta que ela tem: *acordei e a primeira coisa que fiz foi pensar em vocês.*
A gente é muito esperto pra reparar no conteúdo e muito burro pra entender o gesto. Achei que a tia estava mandando uma imagem cafona. Ela estava mandando presença. Ela não sabe fazer stories, não tem assunto pra puxar, tem medo de incomodar ligando. Então ela manda o único recado que cabe na mão dela: um bom dia com glitter, todo santo dia, pra ninguém se sentir esquecido. É a vela que ela acende. É o jeito que ela encontrou de continuar cuidando de gente adulta que já não precisa mais dela — mas que, no fundo, precisa sim.
Não desativei mais o meu. Ainda arrasto muita corrente pro lixo. Mas quando o buquê de rosas aparece às seis da manhã, eu não reviro mais os olhos. Eu respondo. Nem que seja um coração. Porque um dia — a vida ensina isso na marra — o silêncio do outro lado vai ser definitivo, e aí eu ia dar tudo pra ver aquele bom dia brega piscando na tela de novo.
A gente não guarda as pessoas. A gente guarda os bilhetes que elas insistiram em mandar.
Qual é a figurinha, o áudio ou o bom dia que, quando faltar, você ia querer de volta?

