Em Salvador, em toda esquina que presta, tem uma senhora de branco atrás de um tabuleiro. Caruru, vatapá, camarão, a pimenta servida à parte porque nem todo mundo aguenta. Ela frita para o turista, para o office boy, para o bêbado das três da manhã e para a criança que ainda nem fala direito e já aponta.
Em maio eu fiz um react de um vídeo aonde um certo "pastor” de igreja chamava o meu (o seu, o nosso) acarajé de maldição. Pois então vamos levar a sério.
Vamos aceitar, só por um instante, que o demônio escolheu mesmo morar no dendê.
Primeiro, ele teve um trabalho enorme. Atravessou o Atlântico num porão, junto com gente acorrentada, e depois ficou uns quatrocentos anos sentado num tabuleiro, cobrando doze reais a unidade. Paciência de santo, para um capeta.
Segundo, esse tal demônio é seletivo de um jeito muito curioso. Mora no bolinho de feijão fradinho frito no dendê. Não mora no bolinho de bacalhau, que é filho direto do jejum católico, do peixe que se come quando a carne está proibida, e que vai ao mesmo óleo quente, na mesma temperatura.
Mesma massa, mesma fritura, mesmo sal grosso. Um é pecado. Os outros são petisco.
Não mora no panetone, que é pão de Natal italiano. Não mora na esfiha nem no quibe, que chegaram aqui na bagagem de famílias árabes. Não mora no cuscuz, que atravessou do norte da África e virou café da manhã de nordestino. E passa longe do pão e do vinho do supermercado, que na missa de domingo viram sacramento e no resto da semana viram jantar.
Terceiro, e aqui ele se supera: o demônio tem tabela de preço. Aparece no acarajé de quinze reais da esquina e desaparece por completo no acarajé de vinte e cinco ou trinta reais do restaurante com ar-condicionado, onde o prato vira “releitura contemporânea da cozinha baiana” e ninguém na mesa reza para tirar nada dali.
Se ele é assim tão organizado, tão pontual e tão atento à faixa de renda, eu proponho que a gente pare de chamar aquilo de demônio. Demônio nenhum trabalha desse jeito.
Aí você entende o que estava acontecendo o tempo todo.
Não é fé. É nojo, com nome de fé.
E eu não preciso gritar pra dizer isso. Basta perguntar direito.
Bobagem grande como essa se despe sozinha quando a gente leva ela a sério por três minutos e vai atrás da lógica dela até o fim.
Eu não preciso que você coma.
Não preciso que você acredite.
Apenas respeite a nossa cultura.
O ofício daquelas mulheres, a baianas do acarajé, é patrimônio cultural do Brasil, registrado pelo Iphan em 2005, e elas criaram filho, casa e neto com as mãos marcadas de óleo quente sem nunca ter pedido licença à religião de ninguém para existir.
Que comida, que música ou que roupa você já ouviu alguém chamar de “coisa do demônio” só porque não veio da casa ou da religião dele?

