O colorismo não divide o povo negro. Ele já veio dividido.
Um preconceito que vem de dentro é mais difícil de nomear do que aquele que vem de fora.
Tem gente que só descobre uma dor quando alguém finalmente dá nome a ela. “Você é bonita pra negra.” “Cabelo bom.” Comparação entre irmãos de tons diferentes na mesma mesa de jantar. A pessoa sente que aquilo machuca, mas passa a vida inteira sem saber chamar aquilo de alguma coisa.
Em resumo: colorismo racial não é o mesmo que racismo. Racismo separa branco de negro. Colorismo cria uma hierarquia dentro do próprio povo negro, favorecendo quem tem a pele mais clara e penalizando quem tem a pele mais retinta. E o pior: muita gente carrega essa hierarquia como se fosse gosto pessoal, sem nunca desconfiar de onde ela veio.
De onde veio, então? Não veio de estética. Veio de estratégia.
Durante a escravidão, quem tinha pele mais clara ia pro trabalho doméstico, dentro da casa grande, com algum acesso a proteção. Quem tinha pele mais retinta ia pra lavoura, pro trabalho pesado, pra desumanização mais crua. Os senhores de escravos estimulavam essa rivalidade de propósito. Dividir por tom de pele enfraquecia a união, evitava que o grupo oprimido se juntasse contra quem oprimia. Depois da abolição, isso não desapareceu. Virou política de Estado: incentivo à imigração europeia, teorias eugenistas, um médico chamado João Baptista de Lacerda escrevendo em 1911 que o Brasil, em poucas décadas, seria um país branco. Não era teoria de doido isolado. Era consenso de elite.
Essa herança ainda anda por aí, só que sem uniforme.
O caso da Nayara Justino é conhecido: escolhida globeleza da Rede Globo, substituída por uma mulher de pele mais clara depois de uma enxurrada de críticas racistas. Virou notícia até no The Guardian. Em 2025, uma recepcionista negra foi demitida em Campinas depois de um diretor dizer, sem meias palavras, que não a queria por causa da cor da pele dela. São casos com nome, data, processo. E atrás deles existe um padrão: menos gente de pele mais escura em cargo de liderança, em campanha publicitária, em espaço de visibilidade. Dentro de casa, o mesmo padrão aparece disfarçado de elogio ou de brincadeira.
Nomear isso já é o primeiro ato de resistência. Existe até respaldo legal — o Estatuto da Igualdade Racial, de 2010 — pra quem precisa denunciar. Mas antes da lei, vem a coragem de dizer: isso que eu sinto tem nome, e o nome é colorismo.
Existe um paradoxo aí no meio que ninguém gosta de admitir: o colorismo é o racismo reproduzido por dentro do próprio grupo que sofre racismo. A hierarquia colonial foi tão bem instalada que virou identidade pra muita gente, sem nunca ser questionada. Reconhecer isso não divide o povo negro. O povo já estava dividido há séculos, por projeto, por cálculo, por interesse alheio.
Um movimento que não nomeia o que vem de dentro não está pronto pra enfrentar o que vem de fora. Colorismo racial não é preconceito de estética. É herança de escravidão disfarçada de gosto pessoal.
E você, já parou pra pensar quantas vezes repetiu essa hierarquia sem perceber?
Leia o artigo completo aqui: https://denisonluz.com/blog/o-que-e-colorismo-racial/

