Convivendo com o Transtorno Bipolar
Sobre amar alguém em crise sem virar hospital, vigia e psiquiatra ao mesmo tempo.
São 3 horas da manhã e você acorda de madrugada com o barulho que vem da cozinha. Você levanta e vai ver o que está acontecendo. Quando chega lá, encontra uma pessoa sentada sozinha e falando rápido. Os olhos dela estão brilhando e ela está cheia de planos e projetos pra mudar o mundo. Já tem 2 dias que aquela pessoa não dorme. E mesmo assim não parece cansada. Na verdade, ela parece acesa. Em alta. Você fica ali olhando sem saber o que fazer: se entra na empolgação ou se prepara para o estrago que está por vir, pois você já viu aquela cena de filme antes.
Tem gente na minha família que vive com transtorno bipolar faz muito tempo. Então eu já presenciei os dois lados da moeda: o de quem adoece e o de quem fica preocupado. Esse texto é sobre o segundo lado.
Para conviver com uma pessoa com transtorno bipolar é necessário saber separar a pessoa da doença. Precisa aceitar que apenas amar não é suficiente e que é necessário saber sustentar limites sem se sentir culpado.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima mais de 37 milhões de pessoas vivendo com transtorno de bipolaridade. O papel de quem convive é acolher e ajudar a pessoa a ter o tratamento, mas não é virar psiquiatra da noite pro dia.
Sabe aquele sensor interno que nos avisa coisas como: “você está acelerado demais", “você não dorme há três dias", “essa decisão pode esperar”… durante uma crise, esse sensor simplesmente desaparece. Por isso, a pessoa doente não percebe o que todo mundo ao redor já percebeu. E isso não é teimosia.
E também não é frescura nem preguiça. Mas quando a família não entende isso, ela transforma cada um dos sintomas em julgamento. Chama de irresponsável quem na verdade está em crise. Tenta corrigir na marra e com briga uma pessoa que na verdade precisa de tratamento.
No momento em que você entende que não é a pessoa, mas sim a doença, você começa a mudar a pergunta: você para de perguntar “por que essa pessoa está falando ou fazendo isso comigo?" e passa a perguntar: “o que está acontecendo com essa pessoa agora?"
O cansaço que ninguém vê
O mais cansativo é estar sempre tentando adivinhar o próximo passo. Passar a analisar o jeito como a pessoa fala “bom dia”, pela velocidade da fala, se a pessoa está tomando os remédios ou não. Tudo isso realmente cansa. Quando o celular toca fora de hora e dá aquele frio na barriga. E, junto com o cansaço, vem um sentimento que quase ninguém admite: a raiva. Raiva do dinheiro que sumiu, das promessas que não foram cumpridas e de ter que resolver os problemas que você nem começou.
E depois, ainda sentir culpa por estar com raiva de alguém que está doente.
Então eu quero te dizer isso aqui com todas as letras: você não é um monstro por sentir raiva ou ficar nervoso. Sentir cansaço não é abandono. Precisar de distância não é indiferença. A pessoa pode estar contente e você pode estar ferido. As duas coisas podem ser reais e acontecer ao mesmo tempo.
O cansaço que ninguém vê
É normal passar muito tempo achando que se você realmente ama a pessoa com transtorno bipolar e tiver força suficiente, você poderia curar alguém.
A realidade é que ninguém é capaz de curar ninguém. O amor sustenta. A medicina trata. E cada coisa precisa estar no seu lugar.
Você pode acompanhar, conversar, acionar a rede de apoio e ajudar a pessoa a chegar ao tratamento. Mas você não pode ser ao mesmo tempo hospital, psiquiatra, terapeuta, vigia e salvador.
Isso vale até mesmo nas horas mais assustadoras: quando a pessoa fala sobre morrer ou sumir, a função da família é procurar ajuda, não adivinhar sozinha se é de verdade.
Entender a doença também não é aceitar tudo. Compreensão não é permissão ilimitada. Você pode dizer: eu sei que você não está bem, mas não vou ficar aqui se houver agressão. Isso não é abandono. Isso é limite.
Conviver com transtorno bipolar não é abrir mão de si mesmo. É uma luta diária para continuar existindo no meio da tempestade, com terapia própria (ou profissional), com rede de apoio, com direito de dizer “hoje eu não consigo".
E você, na sua casa, já separou a pessoa da doença - ou ainda está brigando com o sensor desligado dela?
Leia o artigo completo aqui: https://denisonluz.com/blog/conviver-com-pessoa-transtorno-bipolar/
